Carta 64 – É possível pensar neles sem as maiores provas de respeito e admiração?

Ontem estiveste na nossa companhia. “Apenas ontem?” Não te queixes: repara que eu escrevi “na nossa companhia”, o que significa que na minha estás tu sempre! Vieram visitar-me alguns amigos, e aumentou a fumaça na minha chaminé: não daquelas fumaradas que se evolam da cozinha dos ricaços para grande susto dos bombeiros, mas uma fumaça modesta apenas para dizer […]

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Carta 63 – Ó desgraçada estultícia a nossa, que até da própria dor faz uma arma de propaganda!

Lamento profundamente o falecimento do teu amigo Flaco, no entanto entendo que a tua dor não deve ultrapassar os limites do razoável. Não ousaria exigir de ti que não sentisses o mínimo abalo perante o fato, embora isso fosse o ideal. Uma tal firmeza de ânimo, contudo, apenas está ao alcance de quem já se alçou muito acima […]

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Carta 62 – seja qual for o local ou o tempo em que eles viveram, é para junto deles que vai o meu espírito

São puros mentirosos todos os que pretendem fazer crer que, se não se entregam ao estudo, é por causa dos seus inúmeros afazeres. Na realidade tais afazeres são um pretexto, são afazeres empolados por gente que se quer fingir ocupada! Eu sou um homem livre, Lucílio, inteiramente livre, e, onde quer que esteja, tenho todo o tempo à minha […]

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Carta 61 – Ninguém é infeliz quando faz algo porque o mandam, mas sim quando o faz de má vontade

Deixemos de desejar aquilo que já algum dia quisemos. Eu, por minha parte, faço o possível por não ter em velho os desejos que tinha em garoto. Os meus dias e as minhas noites, os meus esforços e pensamentos têm como objetivo pôr termo aos meus antigos defeitos. Procedo de modo a que cada dia seja o […]

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Carta 60 – Como é insignificante o que basta para satisfazer a natureza!

Estou triste, estou zangado, estou furioso contigo! Então tu continuas a formular para ti os mesmos votos que a tua ama, o teu pedagogo ou a tua mãe?! Ainda não percebeste todo o mal que eles te desejaram? Oh, como são contrários ao nosso bem os votos dos nossos familiares, e tanto mais contrários quanto mais bem sucedidos […]

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Carta 59 – A fortuna não pode roubar aquilo que não deu!

A tua carta deu-me um enorme prazer. Consente que eu use o vocabulário de toda a gente, sem entenderes as minhas palavras em sentido estóico. É crença nossa que todo o prazer é um vício. Seja; nem por isso deixamos de empregar o termo “prazer” para denotar uma alegria interior. Sei muito bem, repito, que, de acordo com os nossos […]

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Carta 58 – Em que podem as “ideias” de Platão fazer de mim um homem melhor?

Até que ponto é grande a nossa pobreza, direi mesmo a nossa indigência vocabular, nunca o tinha compreendido tão bem como hoje. Estávamos casualmente falando de Platão: mil noções se nos depararam carentes, mas desprovidas, de um vocábulo apropriado; em contrapartida há muitas outras que tiveram nome, caído em desuso devido ao nosso gosto requintado. Ora ter gostos requintados […]

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Carta 57 – O medo deriva não do resultado em si, mas das circunstâncias que geram esse resultado

Quando saí de Báias para regressar a Nápoles deixeime convencer sem dificuldade de que o tempo estava mau, o que me evitaria uma segunda viagem por mar. Só que a estrada estava de tal modo coberta de lama que mesmo assim quase me pareceu ter andado de barco… Passei nesse dia por todas as torturas […]

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Carta 56 – Que interessa, afinal, que à nossa volta reine o silêncio se dentro de nós se agitarem as paixões ?

Eu morra se o silêncio é tão necessário como parece a quem se entrega ao estudo! Aqui estou eu agora, rodeado de barulho por todos os lados, pois estou vivendo por cima de um balneário. Imagina toda a casta de ruídos capazes de porem os ouvidos no desespero: se são os fortalhaços a treinar-se erguendo nas mãos […]

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Carta 55 – Deixar de viver para os outros não significa automaticamente que vivamos para nós mesmos!

Acabei de chegar de um passeio em liteira, tão cansado como viria se tivesse feito a pé todo o trajeto. Afinal também cansa andar às costas dos outros, e talvez ainda canse mesmo mais por ser antinatural: a natureza não nos deu os pés para andarmos, assim como nos deu os olhos para vermos por nós […]

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